Hábitos

Obrigações

Nem tudo que parece obrigação é ausência de escolha; às vezes, é apenas o preço da vida que decidimos construir.

4 min de leitura

Às vezes penso que sou obrigado a trabalhar, a votar, a recolher impostos, a pagar a conta de luz e a ir com minha filha na pracinha no domingo. Carregando esses pesos, sinto-me ressentido e amargurado, e esqueço o principal motivo por que levo essas bagagens nas costas: escolhas próprias.

O peso das escolhas próprias

Eu não sou obrigado a pagar a conta de luz, mas é melhor que eu pague; dessa forma, desfruto dos benefícios proporcionados pela eletricidade.

Eu não sou obrigado a ser minha melhor versão de pai; dou o melhor de mim, no entanto, pois acredito que, dessa maneira, minha filha se desenvolverá física e emocionalmente, e poderá causar um impacto positivo no mundo e na vida de outras pessoas.

Ninguém me força a trabalhar – o faço porque é melhor do que a opção de depender dos meus pais, do Governo, de um(a) parceiro(a) ou de esmolas para sempre.

Tampouco sou coagido a pagar impostos – posso viver como eremita em uma montanha, não consumir algo vendido por outras pessoas que tenha tributos embutidos no preço e não ter renda, mas escolho os confortos da vida em sociedade e pago a conta com alegria(aliás, quanto mais encargos eu pago, mais feliz eu fico: eu adoraria pagar R$ 1.000.000,00 de imposto de renda).

Sempre temos escolhas.

Podem não ser perfeitas como desejávamos, mas, entre uma opção horrível e uma ruim, fico com a última, e agradeço por essa oportunidade.

Não temos controle sobre as possibilidades que se nos apresentam, mas controlamos nossa vontade de selecionar no mínimo a menos pior.

Conforme aprendemos a tomar melhores decisões, as opções tornam-se mais atrativas: se hoje opto por guardar R$ 100,00 a mais todo mês ao invés de enfiar sushi até pelas orelhas na sequência livre, ano que vem posso passar férias em um lugar mais legal; se escolho estudar e trabalhar todos os dias, mesmo nos feriados e finais de semana, posso talvez me aposentar dez anos mais cedo; se decido focar no meu propósito, ao invés de abrir mão dos meus valores em troca de aprovação, posso escolher intencionalmente com quem me relacionar.

Escolher melhor exige prática

Nada disso é fácil: precisamos passar pelo árduo processo de aprendizado.

Melhores decisões só são possíveis graças a muitas ruins.

A melhor maneira de entender como melhorar nosso processo decisório é o fazer deliberadamente, ao invés de deixar-se levar por processos automáticos : quero beber essa lata de cerveja que vai me prejudicar o sono e, consequentemente, o dia inteiro seguinte?

Quero dizer o que sinto agora em um estado de raiva e minar meu casamento por cinco dias?

Quero gastar esse valor em uma compra impulsiva e ter que trabalhar mais horas extras para pagar a fatura do cartão de crédito?

O que carregar e o que largar

Temos o poder de escolher o que carregamos, e também o que largamos.

Largue.

Abra mão do que não te serve mais(ou do que você acha que lhe traz valor, para testar se isso é verdade), por um tempo, ou para sempre.

Em último caso, pegue novamente.

Não deixe de se questionar se tudo que você pensa que é obrigado a fazer são imposições de verdade, ou algo que é melhor do que as outras opções - podem nos tirar a maioria delas, mas não podem decidir quais delas escolheremos carregar.

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