Hábitos

Hábitos

A organização necessária

6 min de leitura

Nosso cérebro não sabe diferenciar um bom hábito de um ruim; para ele, o importante é obter a maior recompensa possível, mais rápido e com o menor consumo de energia.

Quanto mais rápida for a recompensa, mais facilmente o cérebro se habitua a tornar a rotina automática; quanto mais demorada, mais trabalhoso será o processo de automatização.

É por isso que é muito mais penoso levantar do sofá para ir à academia depois de assistir um episódio da nossa série favorita no inverno: a recompensa de assistir à série é imediata; a da academia vai aparecer somente depois de algumas semanas(ou meses!) de prática.

A recompensa vem antes da disciplina

Então, a melhor forma de estimular os hábitos que consideramos bons para nossa especificidade é trabalhar a favor da tendência do cérebro de automatizar nossas atividades.

Alguns dizem que leva 100 dias para estabelecermos um hábito; outros, mais otimistas, apontam 21 dias como o ideal para segui-lo até sua consolidação.

Acontece que não importa quantos dias levamos para construí-los, bastam alguns dias para a volta ao estado anterior a sua criação.

Um dia perdido não precisa virar três

Isso não quer dizer que, se pularmos um dia de academia, estamos fadados ao fracasso, física e mentalmente falando, apenas que devemos ter o cuidado de não transformar um dia faltado de academia em um motivo para faltarmos dois ou três.

Claro, às vezes precisamos descansar; porém, muitas vezes é melhor seguir o hábito, nem que seja apenas para ir até a academia e caminhar 5 minutos na esteira, principalmente no início da sua construção.

Como dizem, ninguém se arrepende depois de ter feito exercícios.

O cansaço também informa

Se estamos sentindo-nos cansados ou desmotivados, estamos diante de uma boa oportunidade para avaliar outros aspectos de nossa rotina, como alimentação, sono, consumo de drogas (lícitas ou ilícitas), trabalho e relacionamentos.

Nossa energia é limitada, mas é normal estarmos desmotivados na terça-feira às 18 horas, quando saímos do trabalho e normalmente temos tempo de ir à academia?

O que comemos regularmente nesse horário?

Qual a quantidade de comida ingerimos no almoço?

Quantas horas de sono dormimos na noite anterior?

O quanto ingerimos de bebidas alcoólicas nessa semana?

Qual é a qualidade das nossas interações sociais com a família e amigos?

O hábito começa antes do horário marcado

As respostas a essas perguntas demandam que demos um passo atrás e paremos um pouco para refletir sobre nossos valores, crenças e objetivos.

Afinal, não é no momento em que estamos indo à academia que decidimos começar a nos exercitar, mas quando pensamos em que tipo de vida queremos ter, ou que identidade queremos para nosso “eu” do futuro - próximo ou distante.

Para conseguirmos ir à academia na terça-feira às 18 horas, precisamos ter uma boa noite de sono na segunda; para isso, precisamos nos alimentar de forma apropriada ao nosso metabolismo e estilo de vida; para isso, precisamos planejar nossas refeições com maior antecedência; para isso, precisamos encontrar tempo na rotina apertada de trabalho, estudos e família.

Hábitos angulares puxam o restante da vida

Essa situação ilustra a melhor parte dos chamados “hábitos angulares”, como a prática regular de exercícios físicos : eles proporcionam a motivação necessária para estabelecer outras mudanças em nossa rotina.

Nesse exemplo da academia, precisamos pensar em nossa alimentação, quantidade de álcool ingerido semanalmente, sono e relacionamentos familiares.

Além do mais, nesse processo podemos obter ganhos indiretos, como equilibrar as finanças, já que planejaremos a preparação das refeições em casa e gastaremos menos em fast-food e restaurantes.

A academia é consequência, não objetivo

No limite, ir à academia é o resultado de uma vida estruturada intencionalmente, e não o objetivo.

Talvez seja essa a dificuldade que a maior parte das pessoas sinta ao tentar iniciar um novo hábito: pensam somente na atividade em si, sem pensar no contexto que envolve a prática.

Se estou com problemas em minha alimentação, dificilmente conseguirei obter a motivação necessária para ir à academia por mais do que duas semanas; talvez no início eu sinta-me motivado pela novidade, pelo ambiente diferente e pela expectativa gerada ao assinar um plano de 36 meses com 4% de desconto.

Porém, logo torna-se difícil seguir uma rotina que não se alinha com o restante da minha vida.

Reduzir o atrito é parte do plano

Da próxima vez que pensar em iniciar um hábito ou atividade nova, avalie como isso poderia encaixar-se em sua agenda, e quais passos necessários para colocar em prática essa rotina com o menor atrito possível.

Se seu objetivo é correr 30 minutos de manhã todos os dias antes do trabalho, nada melhor do que deixar a roupa de corrida junto com os tênis, ao lado da cama, para já levantar-se “vestindo o personagem” corredor.

Talvez no início você consiga comprometer-se a correr uma volta no quarteirão, duas vezes por semana; sem problemas: a ideia é transformar um processo grande em partes menores, que podem ser mais facilmente cumpridas, e realizá-las com regularidade.

Na medida em que percebemos que somos capazes de cumprir uma tarefa, por mais simples que seja, ganhamos confiança para planejar os próximos passos - digamos correr 20 minutos, 3 vezes por semana -, até que a transição rumo ao objetivo inicial de correr todos os dias seja realizada sem grandes sobressaltos ( ou, na pior das hipóteses, saímos de um estado sedentário para o de alguém que corre 20 minutos, 3 vezes por semana; às vezes é mais importante mirar em uma direção, ao invés de em um objetivo específico, mas isso é assunto para outro dia. Agora preciso terminar isso e sair para correr!).

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