O ponto de não-retorno
Nem todo caminho ruim precisa virar destino: às vezes, voltar atrás é a decisão mais corajosa.
Assim como na vida real, há episódios nas séries e nos filmes em que parece óbvio que o curso das ações não levará a um desfecho produtivo – ao menos para alguns dos envolvidos. Tive essa clara sensação ao assistir uma série francesa chamada Dérapages, que em português foi traduzida como Recursos Desumanos.
A chance de parar
Longe de entrar no mérito da validade de suas intenções, o que me chamou mais a atenção foi que o personagem principal não parecia enxergar que sempre havia a oportunidade de parar e voltar atrás - com prejuízos financeiros e emocionais, é claro, mas muito menores do que as possibilidades indicavam caso ele continuasse com seus empreendimentos.
O turbilhão visto de fora
Parece que, quando olhamos de fora uma situação, ela se desenrola em câmera lenta, e conseguimos dissociar as emoções dos acontecimentos. Para os envolvidos no turbilhão, no entanto, tudo acontece de forma rápida e imprevisível. Marcos são ultrapassados e percebidos de formas diferentes para cada um dos participantes: para quem está agindo, são vistos como pontos de não-retorno; do contrário, para quem está assistindo, cada um pode ser o último erro cometido, e a possibilidade de redenção do passado e correção do futuro.
Sempre há retorno
Raramente estamos tão envolvidos que não valha a pena desistir. Enxergar a linha que separa o ponto de não-retorno é muito mais difícil se estivermos constantemente em um estado de ansiedade,medo e distração. Precisamos entender que, assim como nas autoestradas, sempre há retorno. Talvez você tenha que dirigir mais um pouco até o próximo ou parar para refletir sobre os caminhos que se apresentam, e tudo bem. Só de ter que procurá-lo, você já diminui a velocidade e tem mais uma oportunidade para pensar.
A humildade de mudar de direção
É preciso uma dose de humildade para reconhecer que algum relacionamento ou projeto profissional não traz mais os resultados almejados. Abrir mão do tempo e do dinheiro investidos nos traz desconforto, e até dor. Identidades, crenças e valores são lembrados por nosso ego, como se fossem justificativas suficientes para irmos em frente, não importando se a situação real não apresenta muitas chances de sucesso.
Como Jordan Peterson fala em seu livro Beyond Order – 12 More Rules, mudar de ideia e voltar atrás não se trata de desistir de algo que ficou muito difícil e trabalhoso. Se o caminho novo que você enxerga - depois de aprender o que era necessário no atual – mostra-se mais desafiador, então você pode ter certeza de não estar iludindo-se ou traindo-se ao mudar de ideia e retornar.
Um novo ponto de partida
O melhor dia para fazer o certo era ontem; o segundo melhor é hoje: (re)comece, peça desculpas, retire o que disse, mude de ideia. O que você já investiu até aqui já está perdido, e não será recuperado, mesmo que você continue até o final ou volte atrás. Aceite as perdas financeiras e de tempo em projetos e relacionamentos fracassados, e use as derrotas como aprendizado. Avalie o que está em jogo, do zero, e transforme o antigo ponto de não-retorno em um novo ponto de partida.
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