Altruísmo egoísta
Ajudar o outro talvez seja uma das formas mais honestas de cuidar de si mesmo.
Sempre tive dificuldade em entender a essência da palavra “altruísmo”.
A definição mais comum parece fazer total sentido em uma primeira leitura: inclinação para procurarmos obter o bem para o próximo.
Se eu fosse editar um dicionário, porém, a definiria mais ou menos assim:
Inclinação para procurarmos obter o bem próprio por meio de atitudes que também geram o bem para o próximo.
Ajudamos os outros também por nós
Mais do que uma divergência semântica, a prática do altruísmo parece-me algo não voltado primariamente para os outros, mas para nós mesmos.
Explico: no limite, não ajudamos os outros porque eles precisam, mas porque nos sentimos bem com isso.
Do contrário, não faríamos.
E não há problema algum nisso.
Antes que alguém pense que essa concepção pode minar a motivação de quem quer acabar com a fome na África ou de quem doa seu tempo e atenção para os velhinhos do asilo de seu bairro, quero ressaltar que há inúmeros benefícios pessoais gerados por essas atitudes.
Quando ajudamos os outros, saímos um pouco da realidade da nossa própria mente e dos nossos próprios problemas.
Aprendemos a relativizá-los, pois enxergamos que não somos os únicos a passar por dificuldades.
Também aprendemos que, não importa nossa posição social ou econômica, sempre haverá pessoas acima ou abaixo de nós nessa escala imaginária.
A vantagem de pensar nos outros
Há diversos estudos relatados pelo autor Peter Wohlleben, em seu livro “A Vida Secreta dos Animais”, que demonstram que os animais que dividem seus recursos com os que não têm sucesso na obtenção de alimentos são reconhecidos pelos outros membros do grupo.
Em momentos de escassez, esses animais são priorizados no abastecimento.
Traduzindo isso para a nossa realidade, temos uma vantagem evolutiva em pensar naturalmente nos outros.
Também temos uma vantagem em sermos vistos como alguém que consegue sair um pouco de si mesmo e dividir seus recursos — seja tempo, atenção ou dinheiro — com quem precisa.
Ajudar também nos tira de nós mesmos
Se estamos nos sentindo deprimidos ou não vemos sentido na vida em um determinado dia, nada melhor do que oferecer ajuda ou telefonar para alguém que sabemos que precisa de atenção.
Pode parecer um pouco utilitarista em um primeiro momento.
Mas não pensamos conscientemente em nos sentirmos bem ajudando o próximo.
Simplesmente o fazemos porque sabemos que, de alguma forma, sairemos recebendo tanto ou mais do que aquilo que damos.
O interesse existe — e tudo bem
Tudo seria mais fácil se todos tivéssemos o entendimento de que nos relacionamos somente com as pessoas das quais obtemos alguma vantagem.
Essa vantagem pode ser apoio emocional.
Pode ser cumplicidade.
Pode ser alguém para dividir as dificuldades da vida.
Pode ser até algum benefício financeiro.
Para alguns, isso pode parecer um lado perverso dos relacionamentos.
Mas é libertador saber que todos com quem interagimos só o fazem porque temos algo a oferecer-lhes.
Relacionamentos sem placar
Ter consciência de que estamos buscando benefícios em todas as interações, e comunicar essa intenção de forma efetiva, pode adicionar valor aos nossos relacionamentos.
A outra parte sabe que estamos fazendo aquilo porque queremos e gostamos.
Portanto, quando sentamos com um amigo para conversar sobre os problemas nos relacionamentos dele, temos certeza de que esse tempo está sendo utilizado para benefício de ambos.
De maneira análoga, quando aceitamos ir ao almoço de domingo da família do nosso parceiro, sabemos que esse ato é importante para o outro.
Participamos contentes em estreitar a relação e em nos beneficiarmos da convivência com alguém mais feliz.
Dessa forma, não ficamos mantendo o placar de atitudes altruístas.
Nem cobramos reciprocidade.
Porque sabemos que, em última análise, fazemos por nós mesmos.
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