Decisões

Não acredite em tudo o que vê

Nem todo pensamento rápido merece virar crença; algumas decisões exigem uma pausa antes da resposta automática.

4 min de leitura

Daniel Kahneman,em seu livro Rápido e Devagar, conta a história fictícia de dois personagens que operam em nossas mentes : o Sistema 1 e o Sistema 2. Eles são interdependentes e, na prática, não têm tarefas rigidamente separadas . Não há uma linha divisória entre os dois : eles são conceituados de uma maneira alegórica para facilitar o entendimento.

O piloto automático da mente

Ambos estão sempre ativos enquanto estivermos despertos. O Sistema 1 funciona automaticamente, enquanto o Sistema 2 está normalmente em um estágio de pouco esforço, e uma pequena fração de suas capacidades está sendo utilizada. O Sistema 1 está sempre produzindo impressões, intuições, intenções e sentimentos para seu companheiro preguiçoso, que, se endossadas, tornam-se crenças e ações voluntárias.

Ilusões cognitivas

Esse processo ocorre de forma automática e inconsciente, e pode nos causar ilusões de ótica e distorções em nossa forma de pensar, que Kahneman chama de ilusões cognitivas. Há maneiras de exercitar a Atenção Plena, mas viver constantemente em vigilância não é necessariamente um bem, e certamente é algo impraticável. Qual a solução, portanto?

Quando os enganos são mais prováveis

A novelista e poeta inglesa Dinah Maria Mulock dizia para acreditarmos apenas em metade do que vemos, e em nada do que escutamos. Mesmo que as explicações para sua desconfiança na acurácia de nossos sentidos tenham vindo apenas no século seguinte, sua percepção e sensibilidade já mostravam-se em sintonia com o que se passa em nossas mentes ao nos depararmos com o desconhecido. Traduzindo as palavras dela para o contexto das modernas pesquisas, o melhor que podemos fazer para evitar tomar decisões baseados nas ilusões que encontramos é um acordo interno: aprender a reconhecer situações em que enganos são mais prováveis, e se esforçar mais para evitar os significativos, quando há muito em jogo.

Confiança também depende do risco

Na prática, isso pode significar entender nossas próprias definições de confiança, por exemplo. Como saber até onde confiar em um parceiro de negócios ou em minha companheira amorosa? Aceito tudo que vejo e escuto como verdade, ou assumo a postura vigilante e medrosa de não me expor a qualquer risco? Depende: quais são os riscos associados ao relacionamento em questão? Estou investindo todo meu dinheiro em um negócio, de forma que, caso algo saia fora do planejado(ou seja, como em 99,74% das vezes), estarei completamente falido? Deposito toda minha autoestima e valorização pessoal na constância do meu relacionamento e na fidelidade de minha parceira, e estarei destruído caso ela quebre nossos acordos de exclusividade romântica? Se eu acreditar em tudo que meu Sistema 1 me fornece de dados e transformá-los em informações, talvez eu perca muitas oportunidades de construir relacionamentos sustentáveis – ou arrisque sair machucado no processo.

Quando chamar o Sistema 2

No fundo, trata-se de sabermos o cenário da pior situação: quanto mais difícil de reparar os estragos, menos eu devo confiar na minha fonte interna automática, rápida e impulsiva, e mais eu devo utilizar meu Sistema 2, que é responsável pelo pensamento deliberado, devagar e ponderado. Isso significa também aprender a reconhecer vieses e preconceitos em minha forma de pensar, e entender que nem tudo que brilha é ouro.

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